Justiça Torta foi feito especialmente para a
Revista Elis e selecionado para integrar a primeira edição da revista. A escolha me deixou muito feliz por vários motivos e o principal deles é estar presente no desabrochar de uma brilhante idéia literária. A
Revista Elis é uma iniciativa a ser aclamada por leitores e escritores. Sua proposta é alegre e criativa. O objetivo declarado da revista é (re)pensar o universo feminino, convidando autores e leitores a mergulharem na aventura. "
Assuma o seu melhor papel de mulher, perca o controle, escreva e convença o
leitor"
A cada edição a revista escolhe uma ambientação, um pano de fundo, e a partir disso traça personagens. Cada autor deve escolher seu papel e enviar textos com pseudônimo. E se você pensa que é necessário ser mulher para fazer parte da brincadeira, enganou-se: qualquer um com boa dose de criatividade pode (e deve) embarcar na proposta. O que torna a
Revista Elis um oásis de inteligência, criatividade e mentalidade livre.
Como exercício literário a proposta da revista não podia ser melhor: tirando o autor de seu eixo, de seu centro, os textos saem surpreendentes até para quem os produz. Eu, por exemplo, tinha planejado um texto para o papel de Lavadeira. Havia feito várias correlações filosóficas, até míticas, para o conceito de "lavar". Rascunhei coisas, tomei notas, tudo racionalmente muito bonitinho... Aí veio a Puta, me tomou de assalto e o texto saiu num vômito só...
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Desceu do ônibus um pouco antes do sol raiar, o bairro ainda mergulhado num silêncio sepulcral. Começou a andar devagar, o salto fazendo um barulho irritante na calçada velha. Daqui a pouco vai ter chefe de família engravatado indo para o trabalho e aquelas velhacas de véu a caminho da missa. Mas por enquanto a rua era só dela e dos vagabundos.
Andava sem medo, nada poderia lhe acontecer. Não havia mal maior do que sua vida. Há menos de uma hora saíra de um muquifo rançoso no centro da cidade. Bons tempos aqueles em que desfilava pelo calçadão de Copacabana... Mas agora, o peito já meio murcho, a bunda caindo, não dava mais pra escolher. Lembrou-se da ruiva novinha que chegou na Casa outro dia. Aquela estória de musculação dava certo mesmo? As menininhas viviam na academia... ela tinha dúvidas se compensava tanto esforço e suor. Então lembrou que tinha que tomar o coquetel quando chegasse em casa e deixou escapar um suspiro que subiu quente e aveludado como fumaça de cigarro. Talvez não tomasse. Talvez fosse melhor assim. Talvez não precisasse se preocupar com a bunda, enfim...
O barulho do salto ainda a irritava. Segurou-se num poste e arrancou as sandálias. Naquele vestidinho florido até parecia uma mulher descente, mas não precisava sofrer pra manter a pose. E não tinha vergonha de quem era. Voltava pra casa com um dinheiro minguado mas ganho honestamente. Pensou em especial na última nota de cinquenta, largada com má vontade sobre o criado mudo. O cretino tinha deixado quase metade do que ela cobrava. Antigamente eles lhe davam até mais do que pedia. E eram mais gentis também. Agora só pegava esses porcos que achavam de fazer com ela o que tinham vontade e depois atiravam o dinheiro na cara, como uma ofensa. Sentiam tesão até nisso, aqueles sujos que durante o dia se travestiam de pais de família. Como se isso fosse alguma grande coisa... pais de família... fugiu de casa com quatorze por causa dos abusos do seu. E passou a vida sendo abusada por outros.
Esse não era diferente. Arrancou sua roupa com violência, fez com ela tudo o que não tinha coragem de fazer com a esposa, aquela santa nojenta que, provavelmente, só abria as pernas pra fazer filho. E quando ela o lembrou da camisinha o calhorda riu, apertou seu pescoço até quase sufocar e meteu fundo. Gonorréia, herpes, cancro mole... já devia ter pego todas as doenças venéreas de nojentos como esse. Todos se achando super-homens, alguns felizes em lhe dar alguma doença de presente.
Sorriu maliciosamente pensando com nojo no imbecil sobre ela, resfolegando e suando como um animal. Quem disse que essa vida era fácil? Mas agora até que tinha um lado bom. E ela nem tinha culpa, o chauvinista não se preveniu porque não quis. Ultimamente era essa a sua vingança. Esse o prazer que a mantinha. Antes até pensava em aposentadoria, mas parar justo agora, quando finalmente se divertia? Não. A justiça sempre foi uma coisa muito torta, pensou. Agora eu distribuo a minha, sussurrou entre dentes enquanto apertava carinhosamente o ventre pensando no vírus com o carinho de quem espera um filho.