quarta-feira, 16 de maio de 2012

olhos negros na revista dEsEnrEdoS

Olhos Negros é meu conto mais enigmático. Nascido de uma idéia experimental - até onde um texto pode manter os gêneros indefinidos? - é uma narrativa em que o enredo importa menos do que as sensações. Publicado previamente no blog Poética Livre e aqui no site, o conto foi aceito para a décima terceira edição da Revista DeSenrEdoS. Você pode lê-lo online ou baixar o arquivo pdf clicando aqui.

Abaixo tem um aperitivo do texto. Se isso lhe abrir o apetite, leia na íntegra. E se gostar divulgue, compartilhe.
Fugindo do marasmo, rolou desnorteadamente pelo barro, parou quando as forças acabaram, a cara metida na terra, o ar faltando mais do que de costume. Sentiu um frescor mordiscando suas costas e então os pingos tamborilaram pelo mato. Girou mais uma vez e recebeu um vento forte pelas narinas. A chuva recomeçou, mais forte do que antes...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Gilete na Veia

© Gilberto Taccari
não tem a vida senso nem medida nem temos nós importância alguma. no fundo desse meu enjoado otimismo, esse "tudo vai dar certo" que uso como corda para me puxar adiante, no fundo disso há a certeza absurda de que tudo é em vão. nada vale a pena. nem sou eu capaz de nenhum gigantismo. todos os meus atos são inúteis. e, pensando bem, não apenas os meus. todas essas civilizações que já fizemos e ruímos, todos os mundos que criamos e implodimos, a que caminho tudo isso vai? olhe com olhos longos para a estrada do Tempo. deitando seus olhos inicialmente naquele ponto em que não havia nada, deixe sua consciência desfilar até a hora em que tudo explodirá. diga-me: quando não restar mais nada, que importância terá qualquer página escrita, qualquer prédio erguido, qualquer teoria criada, qualquer amor vivido?

Créditos de imagem: foto “Suicidio a Pennarello” © Gilberto Taccari - alguns direitos reservados.
Distribuída por licença Creative Commons.
Fonte: Flickr do autor

domingo, 22 de abril de 2012

ali onde sou mar


Você se agarra à borda dos meus olhos com medo do mergulho. De fato, esses meus olhos verdes de águas profundas, nem sempre são seguros. São águas míticas onde cantam sereias e escondem-se monstros. Nas profundezas habitam serpentes marítimas e há um longo muro de corais. Existem, claro, perigosos rochedos aqui e ali. As águas aparentemente calmas guardam possíveis tempestades, maremotos, redemoinhos.

Mas há também ilhas paradisíacas onde vivem jovens virgens que aguardam ansiosas corajosos marujos. Nessas ilhas todo fruto e doce, todo descanso é reparador, todo amor é incondicional e livre de culpa.

Tudo isso sou eu, tudo isso lhe aguarda.

Mas você se agarra à borda e olha. Minhas águas verdes, disfarçadas de contas, lhe encaram. Você mergulhará?

Onde está o seu navio? Por que não me navega, não me doma? Enfrente meus ventos, domestique minhas águas, desvende meus mistérios. E quando, enfim, descobrir que em cada monstro há uma flor. Que cada serpente lhe aguarda para uma cavalgada. Que cada sereia lhe oferece apenas canto e harmonia. Quando descobrir que meus rochedos não machucam, se souber contorná-los, quando aprender o caminho para as ilhas e nelas construir sua casa, então nade-me. Seja-me. Assim como em paz infinita sou-te nesse exato instante.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

subversos


estes versos vieram pra te virar do avesso.

não são leitura para conforto
alegria amor
ou qualquer outro contentamento

meu verso é encantamento.

reverso da digestão fácil
meu verso é naufrágio
espaço para afogamento

meu verso é atrevimento.

é sangue
guerra
não apaziguamento

meu verso é um tormento.

magia
alteração de consciência
deslumbramento

meu verso é um encantamento

pra te virar do avesso
despir tua pele
e te trazer à tona

sangrando…
… sangrento…

meu verso é teu sepultamento!

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Poema integrante do projeto 111111|121212,
publicado originalmente no blog Poética Livre.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Justiça Torta


Justiça Torta foi feito especialmente para a Revista Elis e selecionado para integrar a primeira edição da revista. A escolha me deixou muito feliz por vários motivos e o principal deles é estar presente no desabrochar de uma brilhante idéia literária. A Revista Elis é uma iniciativa a ser aclamada por leitores e escritores. Sua proposta é alegre e criativa. O objetivo declarado da revista é (re)pensar o universo feminino, convidando autores e leitores a mergulharem na aventura. "Assuma o seu melhor papel de mulher, perca o controle, escreva e convença o leitor"

A cada edição a revista escolhe uma ambientação, um pano de fundo, e a partir disso traça personagens. Cada autor deve escolher seu papel e enviar textos com pseudônimo. E se você pensa que é necessário ser mulher para fazer parte da brincadeira, enganou-se: qualquer um com boa dose de criatividade pode (e deve) embarcar na proposta. O que torna a Revista Elis um oásis de inteligência, criatividade e mentalidade livre.

Como exercício literário a proposta da revista não podia ser melhor: tirando o autor de seu eixo, de seu centro, os textos saem surpreendentes até para quem os produz. Eu, por exemplo, tinha planejado um texto para o papel de Lavadeira. Havia feito várias correlações filosóficas, até míticas, para o conceito de "lavar". Rascunhei coisas, tomei notas, tudo racionalmente muito bonitinho... Aí veio a Puta, me tomou de assalto e o texto saiu num vômito só...
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Desceu do ônibus um pouco antes do sol raiar, o bairro ainda mergulhado num silêncio sepulcral. Começou a andar devagar, o salto fazendo um barulho irritante na calçada velha. Daqui a pouco vai ter chefe de família engravatado indo para o trabalho e aquelas velhacas de véu a caminho da missa. Mas por enquanto a rua era só dela e dos vagabundos.

Andava sem medo, nada poderia lhe acontecer. Não havia mal maior do que sua vida. Há menos de uma hora saíra de um muquifo rançoso no centro da cidade. Bons tempos aqueles em que desfilava pelo calçadão de Copacabana... Mas agora, o peito já meio murcho, a bunda caindo, não dava mais pra escolher. Lembrou-se da ruiva novinha que chegou na Casa outro dia. Aquela estória de musculação dava certo mesmo? As menininhas viviam na academia... ela tinha dúvidas se compensava tanto esforço e suor. Então lembrou que tinha que tomar o coquetel quando chegasse em casa e deixou escapar um suspiro que subiu quente e aveludado como fumaça de cigarro. Talvez não tomasse. Talvez fosse melhor assim. Talvez não precisasse se preocupar com a bunda, enfim...

O barulho do salto ainda a irritava. Segurou-se num poste e arrancou as sandálias. Naquele vestidinho florido até parecia uma mulher descente, mas não precisava sofrer pra manter a pose. E não tinha vergonha de quem era. Voltava pra casa com um dinheiro minguado mas ganho honestamente. Pensou em especial na última nota de cinquenta, largada com má vontade sobre o criado mudo. O cretino tinha deixado quase metade do que ela cobrava. Antigamente eles lhe davam até mais do que pedia. E eram mais gentis também. Agora só pegava esses porcos que achavam de fazer com ela o que tinham vontade e depois atiravam o dinheiro na cara, como uma ofensa. Sentiam tesão até nisso, aqueles sujos que durante o dia se travestiam de pais de família. Como se isso fosse alguma grande coisa... pais de família... fugiu de casa com quatorze por causa dos abusos do seu. E passou a vida sendo abusada por outros.

Esse não era diferente. Arrancou sua roupa com violência, fez com ela tudo o que não tinha coragem de fazer com a esposa, aquela santa nojenta que, provavelmente, só abria as pernas pra fazer filho. E quando ela o lembrou da camisinha o calhorda riu, apertou seu pescoço até quase sufocar e meteu fundo. Gonorréia, herpes, cancro mole... já devia ter pego todas as doenças venéreas de nojentos como esse. Todos se achando super-homens, alguns felizes em lhe dar alguma doença de presente.

Sorriu maliciosamente pensando com nojo no imbecil sobre ela, resfolegando e suando como um animal. Quem disse que essa vida era fácil? Mas agora até que tinha um lado bom. E ela nem tinha culpa, o chauvinista não se preveniu porque não quis. Ultimamente era essa a sua vingança. Esse o prazer que a mantinha. Antes até pensava em aposentadoria, mas parar justo agora, quando finalmente se divertia? Não. A justiça sempre foi uma coisa muito torta, pensou. Agora eu distribuo a minha, sussurrou entre dentes enquanto apertava carinhosamente o ventre pensando no vírus com o carinho de quem espera um filho.